Sábado, 20 de Junho de 2026 12:54
(67) 999729192
Entretenimento Olha o Golpe!!!

Os bocós de cada geração

Dizem que o golpe evoluiu. Eu não tenho tanta certeza. Mudaram apenas as roupas dos golpistas.

20/06/2026 11h13
Por: Redação
Os bocós de cada geração

Antigamente eles chegavam às praças das cidades carregando uma mala velha ou um saco cheio de cobras. Eram os famosos "homens das cobras". Faziam uma roda de curiosos, exibiam serpentes, contavam histórias fantásticas e, quando a multidão já estava hipnotizada, começavam a vender pomadas milagrosas, elixires da juventude e remédios capazes de curar desde dor de dente até coração partido.

O espetáculo era a isca. O produto era a mentira.

Hoje as cobras desapareceram das praças, mas continuam vivíssimas. Apenas trocaram o saco de estopa por escritórios modernos, redes sociais sofisticadas, aplicativos coloridos e apresentações em PowerPoint. O veneno continua o mesmo.

Nesta semana, Dourados assistiu a mais um capítulo dessa velha história. Uma fintech foi acusada de lesar dezenas de investidores. Pessoas que entregaram suas economias acreditando em retornos financeiros muito acima dos praticados pelo mercado. E aí mora o primeiro sinal de alerta que quase ninguém quer enxergar.

Se os grandes bancos, corretoras e fundos de investimento do país, com exércitos de economistas, matemáticos, analistas e computadores milionários, oferecem ganhos modestos dentro da realidade econômica atual, como uma empresa qualquer conseguiria entregar lucros extraordinários sem riscos?

A resposta é simples: não conseguiria.

Mas a promessa do dinheiro fácil tem um poder quase sobrenatural sobre o ser humano. Ela desliga a razão e liga a esperança. E quando a esperança anda de mãos dadas com a ganância, o resultado raramente termina bem.

Os homens das cobras sabiam disso.

Os pastores mercenários também sabem. Alguns transformaram a fé em negócio e descobriram que milagres vendem mais que qualquer produto financeiro. Prometem cura, prosperidade, libertação e até um loteamento celestial, como se fosse possível comprar um pedacinho do céu no cartão de crédito. E há quem compre.

Não é diferente do investidor que acredita ter encontrado a fórmula mágica para enriquecer sem esforço.

Dourados, aliás, possui um verdadeiro acervo histórico de golpes.

Quem não se lembra daquele bonitão que apareceu na cidade, conquistou uma jovem de família tradicional, ganhou a confiança dos sogros, dos empresários, dos amigos e até dos desconfiados? Parecia um príncipe encantado saído de novela. Quando todos estavam convencidos de que o conto de fadas era real, ele desapareceu. Levou dinheiro, sonhos e deixou uma fila de vítimas tentando entender o que havia acontecido.

Teve também o caso do gerente de banco que inspirava confiança absoluta. Afinal, quem desconfiaria de alguém que trabalhava justamente cuidando do dinheiro dos outros? Pois ele cuidou tão bem que resolveu cuidar do dinheiro para si mesmo. Sumiu e deixou para trás prejuízos milionários, reuniões discretas e muito figurão fingindo que a perda não tinha sido tão grande assim.

A verdade é que o golpe acompanha a humanidade desde que alguém vendeu a primeira ilusão para outro alguém disposto a comprá-la.

Alguns caem por ingenuidade. Outros por desespero. Muitos por excesso de confiança. E há aqueles que caem simplesmente porque a promessa de ganhar muito, rápido e sem risco parece irresistível.

No fim das contas, o golpe não escolhe classe social, profissão ou nível de instrução. O doutor e o analfabeto podem cair na mesma armadilha. O empresário bem-sucedido e o aposentado também.

Porque todo golpe começa da mesma forma: alguém oferece algo bom demais para ser verdade e alguém decide acreditar.

E quando a verdade finalmente aparece, geralmente já é tarde.

Por isso, diante de mais um escândalo, mais uma pirâmide, mais uma promessa milagrosa ou mais um negócio imperdível, vale lembrar a frase eternizada pelo velho radialista José Guerreiro, o inesquecível Velho Tatau.

Ao analisar certas histórias, ele costumava resumir tudo em poucas palavras:

— São uns baita de uns bocós.

Talvez fosse uma definição simples demais.

Ou talvez fosse exatamente isso.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Ele1 - Criar site de notícias